Sobre feminicídio, feminismo e excessos

Lia Vainer Schucman

Essa semana, em que o feminicídio aparece por todos os noticiários, não consegui não pensar nas estruturas que fomentam o ódio à mulher e que têm como resultado último o aniquilamento desses corpos. Mas antes da morte física existe todo um arsenal que constrói o mundo onde isso é possível.

A misoginia está em todos os poros desta sociedade, em todos os algoritmos e nas coisas que parecem mais banais. Ela aparece na volta da magreza como padrão de beleza e saúde: a mulher que não pode comer, que não pode sentir prazer, que deve estar sempre se vigiando para caber. Caber onde?? Na nova moda da “clean girl”, sem muitas cores, sem excesso, sem abundância, discretas, neutras. Uma mulher que literalmente não pode exagerar. Alegria demais, desejo demais, voz demais, tudo isso é “excesso” quando se trata de mulher. O amor romântico, que sempre foi uma das maiores tecnologias de controle, continua sendo o centro, para que muitas ainda acreditem que ser escolhida por alguém vale mais do que se escolher. Ser princesa de uma história escrita por outro. No entanto, nada disso basta para não morrer. Morremos porque existimos, e não importa como. Com mini-saia ou com o corpo coberto, indo trabalhar ou andando em uma trilha, sendo virgem ou transando demais, submetidas ou tentando ser livres, nós morremos. Todos os dias nós morremos. E muito. E em excesso.

Ainda assim, eu não acredito em psicopatas nem em monstros como essência. Não há monstros porque nasceram com pau. A dominação não está no corpo de ninguém como algo natural, não há nada que nasça junto com os homens que faça eles matarem, assim como não há nada no branco, nem tampouco havia no alemão. Poder não é algo que alguém tem inato, ele é um exercício. É preciso exercê-lo. Não há loucura nem doença mental que façam alguém agir com misoginia se esta não fosse uma estrutura da sociedade. O que está em jogo é um ódio ao feminino, e se cada dia isso não for pensado por todos nós JUNTOS, homens e mulheres, não há quebra da estrutura. Está aí no papo da esquerda e da direita que feminismo é chato, que é exagero, que é excesso. Mas permitir que essas morram não é excesso.

É norma.

Fonte: https://www.facebook.com/photo?fbid=10163645073188432&set=a.10150100184683432