O pacto da machosfera que acolhe feminicidas com um abraço e tapinha nas costas

O ódio às mulheres não é um sentimento privado, é um sistema de dominação com consequências letais

Por Patrícia Penzin e Ricardo Mello*

O tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo Geraldo Neto é réu por feminicídio e fraude processual. Acusado de imobilizar a esposa, a soldado da PM Gisele Alves, disparar contra sua cabeça e forjar a cena como suicídio, ele foi preso na manhã de quarta-feira. Mas a prisão não interrompeu o ritual de proteção. Neto foi levado sem algemas na viatura e recebido com abraços e tapinhas nas costas de colegas de farda no presídio Romão Gomes.

Esse detalhe é a materialização do pacto da machosfera: um homem mata a esposa, tenta enganar a Justiça e, ainda assim, é acolhido com carinho pelos pares. As mensagens do celular de Gisele revelam a estrutura ideológica por trás do crime. Neto se identificava como “macho alfa” e exigia que ela se comportasse como “fêmea beta obediente e submissa”. Reproduzia o discurso arcaico de que o lugar da mulher é “dentro de casa, cuidando do marido” e se descrevia como “provedor”.

Os prints das conversas do casal são um compilado de frases que parecem ter saído de um manual de casamento do século 17.

“Rua é lugar de mulher solteira a procura de macho.”
“Enquanto vc estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu jeito… Mulher casada comprometida e que o marido é o único provedor do lar tem regras a cumprir.”
“Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo.”

Essas frases não são apenas expressões de ciúme ou controle. São enunciados de uma ideologia que reduz mulheres a propriedade, a que transforma obediência em dever conjugal, a que confunde provisão econômica com direito de posse sobre o corpo e a vida de outra pessoa.

A invisibilidade da misoginia como crime

A morte de Gisele expõe a misoginia que permanecia invisível para a sociedade. O ódio às mulheres não é um sentimento privado, é um sistema de dominação com consequências letais. Quando o tenente-coronel cobra obediência sexual como retorno pelo sustento e quando define a companheira como “fêmea submissa”, ele não está sendo apenas ciumento e controlador. Ele está exercendo uma forma de poder que a lei brasileira ainda se recusa a nomear como crime.

Vivemos uma epidemia de feminicídio e batemos recordes de estupro. Apesar disso, há quem não veja o machismo estrutural que permeia todas as instituições — da família ao Judiciário, da política à polícia — como a raiz dessa violência. Há quem não veja problema em homens lucrarem com conteúdo de ódio às mulheres nas redes sociais, formando uma geração de jovens que não hesitam em armar emboscadas para estuprar meninas.

A comparação é inevitável. Racismo, homofobia e transfobia foram criminalizados. Por que a misoginia, a ideologia que sustenta feminicídios, estupros e abusos, ainda não é considerada crime? Existem 36 projetos de lei sobre misoginia no Congresso. O primeiro foi protocolado há 10 anos. Ainda aguardam votação. E mesmo diante de uma imprensa que relata absurdos diários, o Congresso se nega a discutir o tema e dar uma resposta às mulheres.

Se engana quem pensa que o tenente-coronel Geraldo Neto é caso isolado, uma agulha no palheiro. A misoginia circula livremente em bares, grupos de WhatsApp, conversas de família e, principalmente nas redes sociais. Ela é o solo fértil onde nasce toda violência contra mulheres. Quando a lei não a nomeia como crime, permite que homens construam narrativas de controle sem consequências legais. E isso afeta diretamente a forma como todas as mulheres são vistas e tratadas. Permite que um policial diga à sua esposa que ela é sua propriedade e que, se desobedecer, sofrerá as consequências.

A mudança estrutural que o Brasil precisa não passa apenas por aumentar penas de feminicídio ou aumentar a rede de proteção às já vítimas da violência. Passa por criminalizar a ideologia que o sustenta. Passa por reconhecer que a morte de Gisele foi uma consequência previsível de uma sociedade que permite que homens tratem mulheres como propriedade descartável e que, quando matam, são recebidos com abraços.

Enquanto isso não acontecer, continuaremos chamando de “crime passional” o que é machismo estrutural. Continuaremos chamando de “relacionamento tóxico” o que é dominação sistemática. Continuaremos chamando de “tragédia pessoal” o que é resultado direto de uma misoginia que a lei se recusa a nomear como crime. O abraço que Geraldo Neto recebeu no presídio foi a confirmação de que, neste país, a lei ainda protege quem mata mulheres.

Fonte:https://iclnoticias.com.br/o-pacto-da-machosfera-acolhe-feminicidas/